segunda-feira, 2 de maio de 2011

MEC FM: Youtube Symphony Orchestra, festa para olhos e ouvidos



Um dos projetos mais diferentes e instigantes dos últimos tempos é a YouTube Symphony Orchestra, ou seja, a Orquestra Sinfônica do YouTube, o famosíssimo site de vídeos da internet. Houve uma primeira edição em 2009 nos EUA e outra em 2011, na Austrália. Se você não assistiu ainda a edição 2011, eu recomendo fortemente que assista. O vídeo está disponível na internet, basta procurar por Orquestra Sinfônica YouTube e carrega uma página em português. Lá está o concerto completo, com duas horas e 20 minutos de duração. Falando “você vai encontrar o concerto completo”, parece se tratar de um concerto de orquestra como outro qualquer. Mas não é bem assim. Logo no início do espetáculo, o maestro americano Michael Tilson Thomas, regente e consultor artístico da YouTube Symphony, avisa que aquilo prestes a começar não é um concerto comum, mas o ápice da colaboração entre os mundos da música clássica e da tecnologia. A música clássica está lá na forma de uma orquestra sinfônica de 101 músicos, com idade variando entre 14 e 49 anos, originários de 33 países (três deles brasileiros, um violinista, um trompista e um guitarrista),. O grupo foi selecionado pela internet, passou uma semana na Austrália para concertos na Opera de Sidney e também para masterclasses. A empreitada contou com o apoio da Filarmônica de Berlim, das sinfônicas de Londres e de Sydney. O projeto teve um compositor residente, o americano Michael Bates que criou uma obra especialmente para ocasião e patrocínio da fabrica de automóveis Hyundai, cujo slogan mundial é “new thinking, new possibilities” – novo jeito de pensar, novas possibilidades. Tudo a ver com a proposta da Orquestra Sinfônica YouTube.

O grande diferencial desse projeto é o uso da tecnologia a serviço dos clássicos, seja na própria sala de concerto (e fora dela), seja na construção e na divulgação de todas as etapas que levaram até o grande evento final. Durante o espetáculo, a sala de concerto esteve quase totalmente vestida por efeitos de luz e projeções. O lado de fora prédio da Ópera de Sidney, o principal cartão postal da Austrália, esteve o tempo todo também vestido por projeções e grafismos. Um trabalho incrível realizado pela empresa Obscura Digital e pelo artista gráfico Android Jones.

Li um artigo muito bom de David Cutler, músico, compositor, professor e escritor, especialista em empreendedorismo musical. Ele observou como algumas novidades da YouTube Symphony podem funcionar como referência para o ambiente sinfônico. O processo de audição dos músicos de orquestra, por exemplo, costuma ser cercado de sigilo, há casos em que usa-se inclusive um biombo para que o mérito musical prevaleça acima de tudo. A YouTube Symphony optou pelo extremo oposto: os concorrentes postavam seus vídeos, uma comissão selecionava uma quantidade maior de vídeos do que vagas disponíveis e a votação se dava aberta ao público pela internet. Ou seja, exigiu-se dos músicos uma mobilização de suas redes de relacionamento para que as pessoas votassem neles.

David Cutler lembra que, por mais críticas que este processo de votação aberta possa receber, toca justamente em um ponto importante da atualidade que é o próprio músico cultivar o seu público – uma atitude que colaboraria para aumentar a relevância da orquestra na comunidade. Outro aspecto que o autor levanta é a questão do concerto final da YouTube Symphony ter mostrado vídeos dos músicos em suas cidades de origem. O músico deixa de ser mais um integrante anônimo das estantes para aparecer como a pessoa que efetivamente é. E, por fim, a ênfase aos visuais. Uma quantidade grande de recursos humanos e financeiros foi investida na parte visual, fazendo uma verdadeira festa para os olhos.

O público mundial gostou: no dia em que gravei este comentário, só o concerto final da YouTube Symphony já havia sido visto por mais de um milhão e trezentas mil pessoas, fora os muitos outros materiais disponíveis no canal da orquestra, todos com audiência na casa dos seis dígitos ou mais.

MEC FM: É bom pra Inglaterra, seria muito bom para o Brasil



O que fazer quando a crise aperta e as verbas para manutenção de instituições artísticas e culturais começam a ser cortadas? Essa é uma situação que vem sendo vivida em diversos países, especialmente após a crise econômica mundial de 2008. Aqui no Brasil, o panorama não é muito diferente. É bem mais comum ver uma instituição cultural com problemas de custeio do que feliz da vida com a vida financeira em dia.

A pergunta sobre o que fazer quando a crise chega e as verbas minguam é difícil de responder. Por isso, chamou minha atenção uma atitude da rádio BBC 3, da Inglaterra, especializada em música clássica. A Grã-Bretanha tem passado por cortes radicais nas verbas de custeio de instituições culturais, orquestras inclusive. Pois neste contexto, a rádio pública inglesa teve uma iniciativa muito importante. Decidiu transmitir em todos os dias úteis concertos das diversas orquestras ativas no país. O mais interessante é que esta transmissão de eventos ao vivo de segunda a sexta era uma velha tradição da BBC, que havia sido abandonada há quatro anos, justamente por corte de custos. Felizmente, agora a rádio voltou atrás e retomou o seu papel de vitrine das orquestras inglesas.

O diretor da BBC 3, Roger Wright, disse com todas as letras a razão da retomada das transmissões ao vivo. Ele falou: “Em um momento de crise, quando as verbas para as artes estão sendo cortadas, voltar a ouvir ao vivo nossas orquestras vai possibilitar refletir sobre o espectro e a qualidade do trabalho sinfônico sendo feito no país”. Achei ótimo esse posicionamento. É realmente uma oportunidade especialíssima para avaliar a importância de atividades, ouvir o público local de cada cidade aplaudindo sua orquestra, mostrando como ela é importante e valorizada por aquela comunidade e, quem sabe assim, pressionar políticos pela manutenção de verbas destinadas ao fomento da cultura.

Muito bom ver uma rádio publica cumprindo seu papel de canalizadora e amplificadora das muitas vozes que fazem uma nação. Claro, a Inglaterra é um país pequeno, menor do que o Ceará. Se por lá é importante a mídia colaborar para o conhecimento da produção cultural nacional, imagina no Brasil. E, além desta questão cívica, política, tem ainda uma certa tendência de comportamento e de marketing no sentido de valorizar eventos ao vivo. Veja o caso de sucesso das óperas do Metropolitan de Nova York que são transmitidas ao vivo para cinemas de todo mundo ou mesmo as transmissões da Filarmônica de Berlim direto de sua sala de concertos para a internet.

Ainda que o Brasil seja um país grande, complexo, repleto de idiossincrasias e carente no que tange à redes de troca entre instituições artísticas, não custa tentar vislumbrar o dia em que será possível ouvir ao vivo no rádio concertos de orquestras tão distintas como a Osesp, a Sinfônica da Bahia, a Filarmônica de Minas Gerais, a Orquestra de Câmara do Theatro São Pedro de Porto Alegre, a Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro de Brasíia, a Sinfônica de Barra Mansa, a Filarmônica de Minas Gerais, a Sinfônica do Recife....será que este dia está tão longe assim? Ou será que falta apenas um peteleco para iniciar um processo que traria tantos benefícios para a atividade sinfônica brasileira? Fica lançada a ideia.

MEC FM: Moët Chandon, Scarlett Johansson e os clássicos



A casa Moët & Chandon, produtora de champanhe, é proprietária de um castelo na cidade de Saran, na França, próximo de sua sede e onde fica parte de seus vinhedos. O castelo foi construído em meados do século 19 e é um símbolo importante da marca que nasceu ainda antes, em 1743. Naquele longínquo ano, o Sr. Claude Moët começou a produzir champanhe para atender os nobres franceses, entre eles ninguém menos que o Rei Luís XV. É neste histórico castelo que a bela atriz americana Scarlett Johansson passa uns dias por ano para cumprir parte dos afazeres de garota propaganda da marca Moët & Chandon. Ela está lá nas celebrações de colheita, em festas e eventos especiais, para fazer fotos de publicidade.

Uma marca europeia cercada de tanta solidez e tradição, com uma história que remonta a mais de 250 anos, tão solidamente fincada no passado, por que será que foi escolher uma celebridade americana com menos de 30 anos para ser a cara de seus produtos? Vamos ver o que Daniel Lalonde, presidente da companhia, tem a dizer a respeito: “Temos 267 anos para olhar para trás, avaliar tudo o que foi feito, nos inspirar no passado e traduzir isso para a sociedade moderna. Devemos equilibrar tradição e modernidade. Scarlett Johansson significa hoje glamour, grandeza e alegria de viver, atributos muito importantes de nossa marca”.

Essa reflexão do presidente da Moët & Chandon me remeteu ao mundo da música clássica, ao compromisso com suas tradições, à importância de seu passado, ao foi conquistado e ao que foi perdido ao longo dos séculos, Me remeteu a toda experiência que vem sendo acumulada de apresentar os clássicos à juventude. Lembrei também daquela frase famosa do escritor Pedro Nava: “A experiência é um carro com os faróis voltados para trás”.

Quem tem séculos de experiência acumulada, como a marca francesa de champanhe e como a música clássica precisa mesmo olhar bem pra trás e tirar as melhores lições do passado. Mas, ao mesmo tempo, precisa garantir relevância no presente, aqui, hoje e agora, precisa fazer parte da vida das pessoas da atualidade. E, claro, precisa estar de olho no futuro, prestando atenção a tendências e \novos comportamentos. Quem lida com tradição e passado, precisa de rostos novos, como o de Scarlett Johansson. Eles conferem uma lufada de ar fresco a produtos e hábitos tão tradicionais como uma garrafa de Moët & Chandon ou uma ida aos concertos. E os rostos nem precisam ser tão bonitos com o da atriz americana. Basta eles serem verdadeiros.

MEC FM: Violinista multi atarefado encontrou um par no século 19



Que vivemos na era da multitarefa, isso a maioria de nós sente na pele. E não importa muito se você trabalha em empresa, é profissional liberal, já está na aposentadoria, é estudante, funcionário público ou dona de casa. Todos temos dado conta de mais tarefas do que nosso horário parece permitir é fácil nos perdemos em assuntos que não nos dizem respeito, mas por alguma maneira capturam nossa atenção e consomem nosso tempo. Há algumas rotinas que sentem os efeitos da multitarefa de forma mais pungente, como quem trabalha diretamente com internet – é preciso estar atento a vários pontos de interesse ao mesmo tempo.

E o músico clássico da segunda década do século 21, como será sua rotina nesses tempos de multitarefa? Esbarrei recentemente em duas entrevistas do violinista britânico Daniel Hope, que fez parte do Trio Beaux Arts, e, em ambas, o músico tecia comentários sobre responsabilidades que empilham-se uma em cima da outra. Eis um dos nossos! E o seu projeto mais recente foi justamente gravar a obra do compositor e violinista húngaro Joseph Joachim, grande amigo de Brahms, Schumann, Dvorák. Pois já no século 19 Joachim era, adivinha o que?....um multiatarefado!

Daniel Hope observa que Joseph Joachim e outros artistas podem funcionar como modelo de artistas que, já no passado, lidavam bem com múltiplos papéis e múltiplas responsabilidades simultâneas. O caso de Mendelssohn, por exemplo, que já não bastasse desempenhar três funções (compositor, regente e pianista), mas também era um organizador de festivais e fazia captação de verbas. E Robert Schumann que também fundou e chegou a ser editor de uma revista de música que existe até hoje.... Daniel Hope lembra que tocar e ter atividades de fomento do meio musical era algo comum até que o século 20 veio a estabelecer o sistema de estrelato dos artistas. Estrelato que o século 21 mostra ser cada vez menos rentável, com a pulverização dos canais de divulgação de música, a vulgarização de equipamentos de gravação e a incrível velocidade da internet. O artista tende a se ver novamente em várias frentes d eação, protagonizando a divulgação de sua arte. O próprio Daniel Hope é um exemplo disso. Ele escreve livros, produz vídeos para a internet, organiza um festival na Alemanha, é um ativista...além, claro, de tocar violino pelos quatro cantos do mundo.

Sabe aquele sentimento de pressão por conta das multitarefas e seus prazos quase sempre estourados? Acho que não somos só eu e você que sentimos. Algo me diz que Daniel Hope também está nessa.

MEC FM: Desbravadores dos clássicos levam concertos para as massas



Tem sido comum eu aproveitar este espaço da MEC FM para comentar a respeito de iniciativas pelo mundo que estão estabelecendo novos lugares para a música clássica, especialmente aproximando-a dos jovens que frequentam o circuito norturno de suas ciadades. Esse é um dos assuntos que mais interessa e por isso fico atenta a novidades na área e me apresso em dividir com você. Já falei aqui de iniciativas na Alemanha, em Londres, em Nova York, falei do projeto Democlássicos que idealizei aqui na nossa terra brasilis mesmo.

Abrindo um pouco o espectro de interesse, ampliando o foco para projetos que levam a música clássica para as massas, para pessoas que jamais tiveram contato com o mundo dos concertos, não importa a idade, há alguns desbravadores muito importantes aqui no Brasil...e não é de hoje. Nos anos 1970. os idealizadores do projeto Aquarius e do programa Concerto para a Juventude, na TV Globo. A aquela altura do campeonato, levar música clássica para a Quinta da Boa Vista, no Rio, e para o mais popular canal de televisão do País era uma atitude desbravadora....e como. O maestro Isaac Karabtchevsky teve um papel fundamental neste contexto.

Avançando no tempo, faz pouco mais de dez anos que o pianista Arthur Moreira Lima teve uma ideia incrível. Transformar um caminhão em um palco, transportando um bom piano de cauda pelas estradas do Brasil e fazendo recitais gratuitos em praça pública no tal caminhão-palco nos mais longínquos rincões do Brasil. Esse projeto do Arthur é sensacional, se chama “Um piano na estrada”. Tem inclusive um livro publicado a respeito, bem interessante.

Mais recentemente, um músico em especial tem feito muito pela divulgação da música clássica para as massas no Brasil. Eu me refiro ao pianista e maestro paulista João Carlos Martins. Depois que teve o problema nãos mãos e teve que suspender sua carreira de recitalista internacional – ele foi muito reconhecido pela crítica mundial, especialmente por suas interpretações do repertório de Bach - , João Carlos voltou de vez para o Brasil e decidiu que ia trabalhar em prol da divulgação da música clássica entre os menos favorecidos da sociedade, seja na formação de instrumentistas, seja na formação de público. No Carnaval 2011 de São Paulo, a escola de samba Vai-vai foi a vencedora com um enredo que contava a história de superação de João Carlos Martins. As imagens que aquele desfile possibilitou, como a bateria vestida com casaca de concerto, uma passista sambando com um violino na mão, fizeram muito para aproximar todo o universo de concertos, que às vezes parece um lugar tão distante do dia a dia, da grande massa de espectadores do Carnaval pela TV. Viva João Carlos Martins, um grande desbravador para a música clássica adentrar a vida de quem não a conhece, mas está prontinho para gostar dela.

quinta-feira, 31 de março de 2011

MEC FM: Cada vez mais distraídos pela internet

Áudio e texto de comentário veiculado na rádio MEC FM do Rio de Janeiro, em março/abril de 2011.



Em dezembro de 2010, o jornal O Globo publicou uma entrevista bem interessante com o escritor americano Nicholas Carr, também professor do conceituado MIT (Massachusetts Institute of Technology), sobre como a internet tem nos tornado pessoas distraídas e o que pode e não pode ser feito a este respeito. Quem conversou com o americano foi o jornalista Gilberto Scofield Jr. A tese central de Nicholas Carr é a seguinte: a plataforma multimídia que é a internet favorece mais à distração do que ao conhecimento, limitando seriamente nossa capacidade de atenção e foco. Óbvio que um cenário assim não favorece o aprendizado de jeito maneira. O último livro dele não havia sido lançado no Brasil quando eu gravei este comentário. Em português, o título seria algo como “Os superficiais, o que a internet tem feito com nossos cérebros”.

Na entrevista ao Globo, Nicholas Carr foi bem direto ao ponto. Disse: “Multimidia requer que a pessoa mude o tempo todo seu foco e, com isso,a habilidade de aprender se reduz. Ainternet não é desenhada por experts em educação, daí as constantes mudanças de foco. O modelo básico de das redes sociais, como o Facebook, não é feito com a ideia de otimizar a compreensao e o entendimento. É feito com a ideia de manter a visão grudada na tela em focos de conteúdos constantemente variados e atualizados.” E mais um naco do pensamento do americano Nicholas Carr: “Os aspectos básicos da tecnologia são esses: links, mecanismos de buscas, alertas, interrupções, multitarefas, multifuncionamento. Este sistema não nos encoraja nem nos da oportunidade para fazer coisas que necessitem de atenção mais profunda. Se você é constantemente interrompido, nunca consegue exercitar formas de pensamento mais focadas e atentas. Quando a mente presta atenção, pensa profundamente sobre algo, foca e se concentra....são ativados processos cognitivos como pensamento critico, memoria e algumas formas de criatividade.”

Li essa entrevista na época em que foi publicada e, desde então, fico cada vez mais convencida de que a música clássica tem um papel bem importante a cumprir nesses tempos de distração provocada pela internet. Nem precisar ser na forma do aprendizado formal de um instrumento, pois a gente já sabe há décadas que o aprendizado de música treina o cérebro para formas muito relevantes de raciocínio. Eu me refiro aqui à escuta pura e simples. Os clássicos requerem um tipo de concentração especial de escuta. Mesmo que você ouça fazendo outras coisas, como dirigindo, lendo, trabalhando ou mesmo arrumando a casa, você está conectado com a música de uma forma consciente e constante, com menos interrupções do que o frenético ir e vir dos hipertextos que tanto preocupam Nicholas Carr. E se ele estiver mesmo certo e o ato de prestar atenção e focar em algo efetivamente ativar processos como criatividade, então, viva a música clássica!

MEC FM: A experiência do bloco Feitiço do Villa

Áudio e texto de comentário veiculado na rádio MEC FM do Rio de Janeiro, em março/abril de 2011.



A estreia do bloco Feitiço do Villa no Carnaval 2011 no Rio foi um sucesso. Calhou do 5 de março, dia nacional da musica classica, cair em um sábado de Carnaval e daí surgiu a ideia de comemorar Villa-Lobos e todos compositores no Cranaval de rua tod Rio. Essa foi uma ideia minha, de Luiz Alfredo Moares e do maestro Carlos Prazeres. A adesão da classe musical foi grande, cerca de 20 músicos subiram ao palco montado em frente da Escola de Música da UFRJ, localtão simbólico para o circuito de concertos da cidade. Juntaram-se a essa brincadeira séria a soprano Mirna Rubim, o arranjador Marcelo Caldi e o cantor e compositor de música popular Edu Krieger, que fez o samba do bloco em parceria com seu pai, o grande Edino Krieger.

Começamos a trabalhar na proposta de um bloco de música clássica em agosto de 2010, foram quase sete meses de trabalho. Entre músicos que tocaram, fornecedores e prestadores de serviços, parceiros de realização, foram mais de 50 pessoas mobilizadas para fazer o Feitiço acontecer bonito em seu primeiro carnaval. Não tivemos patrocinadores e todas as despesas foram pagas com a venda de camisetas. Contamos com o apoio da Secretaria Municipal de Cultural, que forneceu o palco; da Escola de Música da UFRJ, que forneceu a infra-estrutura de seu prédio no dia do desfile para nossa produção; Orquestra Petrobras Sinfônica que cedeu sua sala na Fundição Progresso para os ensaios do bloco, além de materiais; VivaMúsica!, cuja equipe administrativa organizaou a venda de camisetas; e a EBC, cujas emissoras MEC FM e Radio Nacional deram ampla divulgação ao bloco.

A imprensa recebeu muito bem essa novidade e o bloco teve ampla cobertura na mídia. Revsita Veja Rio publicou uma foto do Feitiço de página inteira. No jornal O Globo, tivemos destaque em reportagens do Segundo Caderno, Rio Show, editoria Rio e notas na coluna Gente Boa. Jornais Extra, O Dia, o jornal gratuito Metro também falaram do Feitiço do Villa. Uma equipe do telejornal Bom Dia Brasil, da Rede Globo, acompanhou nosso último ensaio e fez uma ótima matéria. No dia 5 de março, recebemos no palco da Lapa equipes dos canais Rdee TV, Band, TV Brasil e uma equipe do “Fantástico”, que fez reportagem para a edição on-line do programa. Chovia bastante e, ainda assim, recebemos um público estimado em duas mil pessoas. Muita gente fantasiada de personagens de ópera, houve até uma foliã fantasia de Constance Mozart, a esposa do compositor. O bloco ofereceu um espetáculo com cerca de duas horas de duração, só tocando música clássica e também o nosso samba, que faz uma homenagem aos clássicos. Foi uma diversão sadia e musicalmente relevante. Encerramos cantando o “Parabéns pra você” composto por Villa-Lobos,que, afinal de contas, era o aniversariante do dia. Foi lindo ver aquele pessoal todo que se aglomerava para ver o Feitiço fazendo uma homenagem ao nosso patrono. Tomara que ele tenha gostado.

MEC FM: Silvana, maquiadora, e a magia do ouvinte que se torna visível

Áudio e texto de comentário veiculado na rádio MEC FM do Rio de Janeiro, em março/abril de 2011.



É comum a mídia desenhar um certo perfil de audiência do público-alvo para quem todas as transmissões são dirigidas. E acontece do perfil desse público-alvo chegar a um nivel grande detalhes. Isso facilita as escolhas do que vai ser transmitido e como vai ser transmitido. Uns anos atrás, chegou a circular de maneira ampla, acho que na internet, que o perfil do espactador padrão do Jornal Nacional da TV Globo era uma espécie de Hommer Simpson, o personagem do desenho animado Os Simpsons, um sujeito meio tosco, que não tem muita cultura e nem reflete sobre as coisas – seria para alguém com este perfil que o joranl era feito.
Eu já trabalhei em outras rádios de música clássica além da MEC FM e sei que é comum o ouvinte padrão ser identificado com alguém de razoável conhecimento de repertório, pensamento crítico, alguma frequência a concertos, talvez uma certa sisudez e seriedade de comportamento. É esse perfil que norteia toda a maneira da rádio transmitir, desde as músicas selecionadas até o jeito que o locutor dá a hora certa ou lê o noticiário. Outra coisa com relação a ouvintes de rádio, qualquer rádio: há uma minoria que se manifesta, liga, manda email, aparece em pessoa. A maioria dos ouvintes é silenciosa, propõe-se apenas a ouvir e prefere não se manifestar. Sempre tive pra mim que ouvinte de rádio clássica tem sim, claro, uma boa vontade com música clássica, caso contrário não estaria ouvindo. Mas quem disse que vai a concertos, conhece história da música...sabe tocar instrumento, ler partitura?

Fui participar de um telejornal noturno no canal Globonews. Cheguei mais cedo e fui para a sala de maquiagem. Era o dia do terremoto do Japão e participava do programa também um especialista da área. Estávamos aguardando a hora de entrar quando ele me perguntou sobre que eu iria falar e eu disse: música clássica, trabalho com isso. Nesse momento, a maquiadora, com quem eu já havia conversado um pouco, vira-se e diz.: “Nossa, sabe que eu ouvi hoje no rádio que tem um programa na Itália para jovens com menos de 30 anos frequentarem mais os concertos? Até fui procurar na internet mais detalhes sobre isso, fiquei interessada”. Eu disse: ‘Perai, fui eu quem falou hoje de tarde sobre isso na MEC FM! Você me ouviu!”. E fez-se aquele momento meio mágico, em que o ouvinte se torna visível na sua frente. Silvana, a maquiadora, se tornou imediatamente Silvana Rufino, moradora de Vicente de Carvalho, ouvinte frequente da MEC e do programa VivaMúsica!. Ela ouve no ônibus, quando está indo da aula para o trabalho. E faz assim, alterna a escuta da MEC com a JB FM. A Silvana gosta da música clássica, mas não vai a concertos nem é daquelas aficionadas..nada disso. Tem um sobrinho, o Jeferson,de 10 anos, que mora na comunidade da Babilônia e está tendo aulas de violoncelo. Parece que está indo muito bem o garoto. Na pessoa dela, um agradecimento a todos que ouvem sempre a MEC FM neste horário da 1 da tarde.

MEC FM: “No meu táxi, só pega essa emissora”

Áudio e texto de comentário veiculado na rádio MEC FM do Rio de Janeiro, em março/abril de 2011.



Uma das boas surpresas ao andar de táxi no Rio é quando a gente chama o carro na rua, entra de forma meio apressada e, quando finalmente fecha a porta e informa ao motorista o destino da viagem....percebe que o rádio está sintonizado na MEC FM. Volta e meia isso me acontece. Se você pega táxi sempre ou só de vez em quando, possivelmente já teve essa boa surpresa. Sempre que ocorre de eu entrar em um taxi sonorizado com música clássica, seja na MEC FM ou em CDs, eu pergunto para o motorista se ele ouve sempre a rádio, se gosta de clássicos, etc. Já aconteceu de eu dizer que participo da rádio e o motorista dizer que me acompanha. É sempre uma surpresa muito bacana entrar em táxi que toca música clássica.

Dia desses eu peguei um carro que estava sintonixado na MEC e, quando eu comecei a entabular minha costumeira conversa com o motorista, ele contou que descobriu a música clássica por acaso e agora é um aficcionado e só ouve a MEC FM. Interessantíssima a maneira como os clássicos entraram na vida daquele jovem senhor. Anos atrás, ele trabalhava como “motorista de madame”, pra usar suas próprias palavras. Ele estava com o carro parado esperando a patroa, perto de uma caçamba dessas para entulho de obra. Viu uma caixa cheia de fitas cassete e resolveu pegar, pois o carro que ele dirigia tinha ainda lugar para fita, não tinha CD. Era uma possibilidade de ouvir música naqueles momentos de espera enfadonha. Pois, junto ao entulho, havia fitas com música de Vivaldi, compositores barrocos e até ópera russa. Ele ficou encantado com aquilo tudo e mergulhou fundo nos clássicos. Acabou se transformando no tipo de música que ele mais gosta de ouvir.

A primeira vez que nosso motorista mostrou ao filho de 8 anos uma gravação de Maria Callas, o menino respondeu de maneira muito engraçada. Ele perguntou assim: “Pai, quem é essa cabrita que berra tanto?”. Hoje ele conta que o filho aprendeu a ouvir e a gostar. A primeira vez que mostrou a “Nona” de Beethoven pro garoto, fez questão de dizer pra ele “Olha a explosão, filho, que linda!”. Linda mesmo é essa história da música clássica que entrou na vida por umas fitas velhas jogadas no lixo e que se tornou tão estruturante da rotina de alguém.

Quando perguntei se os passageiros gostavam de ouvir a MEC FM, ele disse que 99% gostam. Para os que não gostam e pedem pra trocar de emissora, a resposta está na ponta da lingua: “meu rádio tem defeito, no carro só pega essa emissora, quer que desligue?” . E ele ainda defende a música clássica pra esses passageiros que não gostam. Antes do término da viagem, ele disse: “Música que é ouvida há tanto tempo, passados 300, 400 anos, não pode ser uma coisa qualquer. Daquele funk “ Boquinha da garrafa” ninguém se lembra mais”. Que grande figura humana esse taxista amante dos clássicos e ouvinte fiel da nossa MEC FM.

MEC FM: O crescimento da classe C e a demanda por clássicos

Áudio e texto de comentário veiculado na rádio MEC FM do Rio de Janeiro, em março/abril de 2011.



Uma das boas notícias econômicas e sociais dos últimos tempos aqui no Brasil foi o crescimento da classe C. Nosso país vive um momento especialmente bom e está prestes a atingir o menor nível de desigualdade de renda desde que os registros foram iniciados. Entre 2003 e 2009, cerca de 30 milhões de pessoas ingressaram na classe C, a chamada “nova classe média”. O total de brasileiros nesta faixa é hoje de 95 milhões, o que significa 50,5% da população. Ou seja, a maioria absoluta de nossos compatriotas compõem a classe C. Muito do olhar sobre a classe C vem do interesse em seu poder de compra, em sua possibilidade de decisão eleitoral.

No que diz respeito a poder de compra, claro que empresas de diversos setores querem e precisam se comunicar com a classe C. A agência de propaganda WMacCann, do publicitário Washington Olivetto, fez um estudo profundo para poder identificar os melhores caminhos para seus clientes apresentarem produtos para a classe C. Os números deste estudo em profundidade são quase tão impressionantes quanto ao tamanho dessa nova classe média. A pesquisa da agência de Washington Olivetto somou 5 mil horas convivência em familia, fez 4 mil horas de videos registrando o cotidiano delas, realizou 3 mil e setecentas entrevistas em profundidade, conversou com 163 especialistas e observadores de mudanças. Um estudo realmente de grande vulto. Li uma frase citada em artigo do economista Marcelo Neri, da Fundação Getúlio Vargas, ótima, que diz o seguinte: “É preciso não só dar os pobres aos mercados, mas dar o mercado aos pobres”.

Se os principais atores do cenário econômico estão prestando MUITA atenção a esta dita nova classe média, o que nós do setor cultural e mais especificamente da música clássica estamos fazendo neste sentido? Se o acesso da classe C ao crédito, aos produtos, à casa própria, à educação está na ordem do dia, como ficaria o correspondente acesso desse novo público recém-chegado ao mercado consumidor no circuito de concertos, por exemplo?

Será que algum gestor de orquestra pensa em desenvolver espetáculo para quem até ontem mal tinha condições de garantir o básico de sua existência mas agora tem condições de promover para si próprio e para a sua familia acesso a bens de consumo, inclusive culturais? E o que dizer de produtos como fascículos em bancas de jornal, por exemplo.Já pensou que interessante seria uma coleção de música clássica pensada exclusivamente para a classe C? Ou um canal de transmissão de músicas clássicas no rádio voltado para este novo público que chega sem qualquer conhecimento prévio e também sem qualquer preconceito? As possibilidades estão no ar, tomara que alguém se disponha logo a fazer.