domingo, 27 de fevereiro de 2011

O tempo da ópera ontem e hoje: adaptação é mesmo necessária?

Ouça (e-ou leia) meu comentário sobre o assunto!



Até que ponto uma arte como a ópera, que manteve intacto durante séculos seu modelo de apresentação, consegue se “adaptar” – entre aspas – ao ritmo acelerado dos tempos de hoje? Acho até que cabe uma pergunta anterior: mais do que conseguir se adaptar, será que a ópera precisa se adaptar ao timing do século 21? A utilização do tempo livre das pessoas mudou muito desde o início do século 17, época das primeiras encenações de ópera, até os dias de hoje. E nem é preciso ir tão atrás, basta retroceder até meados dos anos 1950, por exemplo. Naquele tempo, havia menosconcorrência de uso do tempo livre e o próprio tempo disponível das pessoas era bem maior. Em plena correria de 2011, é um luxo conseguir alocar cerca de três horas para assistir a uma ópera em teatro, fora os deslocamentos de ida e vinda. Sem contar o preço do ingresso, muitas vezes equivalentes a várias sessões de cinema, por exemplo. A escolha por um programa de longa duração e menos barato como a ópera requer mais reflexão hoje do que em tempos passados.

Mas o que fazer, então? Adequar a ambientação das óperas aos corridos tempos atuais, de forma a aumentar o link com o espectador e, consequentemente, aumentar seu grau de atenção e o valor da ida à ópera? Bem, isso já vem sendo feito há algum tempo, é bastante comum os diretores atualizarem época da trama e mesmo perfil dos personagens, mas sem mexer na parte musical. Ou que tal diminuir o tempo de duração das óperas, apresentando versões musicalmente condensadas dos grandes títulos líricos? E se a proposta for dupla: atualizar o tempo da trama e diminuir a quantidade de música? Na cidade de Hamburgo, na Alemanha, há uma iniciativa com essa proposta dupla. O Opernloft ocupa parte de um galpão antigo no centro da cidade e lá apresenta versões atualizadas e condensadas de óperas do repertório tradicional. Eles têm um projeto chamado Operabreve, sempre com 90 minutos de duração. A ação da trama é deslocada para dias de hoje e o figurino é moderno, a roupagem é pop. Até as árias das óperas podem ser tratadas por lá como canções pop. O projeto existe há anos e acumula boa repercussão. Achei interessante a fala de uma diretora desse projeto. Ela diz “Hoje as pessoas têm outra dimensão sensorial, com DVD's, playstation, cinema e efeitos especiais. A ópera precisa acompanhar isso". Realmente, a nossa dimensão sensorial mudou muito com a tecnologia, mas até que ponto o que é apresentado pelo pessoal do Operabreve pode ser mesmo chamada de ópera? Seria melhor uma outra palavra que expressasse aquele tipo de espetáculo cênico? Mais que uma questão etimológica ou semântica, temos aí uma questão estética. É bom acompanhar os próximos capítulos.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Clique e ouça nosso samba!

Samba do bloco FEITIÇO DO VILLA

Compositores: Edu Krieger-Edino Krieger
Arranjo: Marcelo Caldi
Violinos: Gustavo Menezes e Éder Paulozzi. Viola: Ivan Zandonade. Violoncelo: Marcus Ribeiro. Flauta: Bebel Nicioli. Oboé: Carlos Prazeres. Trompa: Eduardo Almeida Prado. Clarineta: José Batista Jr. Fagote: Débora Nascimento. Cantor: Edu Krieger. Soprano: Mirna Rubim.

Gravado e mixado por Plínio Profeta.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Meus comentários na MEC: boa razão pra ligar o rádio

Quem diz isso é a matéria de capa do Segundo Caderno do Jornal O Globo de hoje. Com o título "Uma nova era do rádio", a reportagem de Leonardo Lichote traça uma boa panorâmica do dial atual, especialmente no Rio de Janeiro.

Uma lista chamada "Dez boas razões para correr o dial" aponta no item "Música séria, linguagem leve" meu programa diário na rádio MEC FM, cujos roteiros tenho reproduzido aqui no blog.

A imagem abaixo traz a versão on-line da reportagem. Sou citada nas últimas linhas.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Meus boletins na MEC FM do Rio/ julho 2010

Estou publicando aqui no blog os textos dos comentários que faço diariamente na rádio MEC FM do Rio de Janeiro (98.9 ou www.radiomec.com.br/fm/). Eles vão ao ar sempre às 13h, no boletim "VivaMúsica! e o mundo dos clássicos, com Heloisa Fischer".

São crônicas curtas, sempre em torno de algum tema ligado à música clássica.

Como muitos ouvintes têm pedido pra receber os textos dos comentários, vou passar a publicar mensalmente aqui no blog. Mas, primeiro, é preciso recuperar o tempo perdido.

Eis os demais daquele mês de estreia (já publiquei outros em posts anteriores).

Ah, sim, meu espaço na MEC existe desde 2004, mas foi somente em 2010 que ganhou este formato de crônicas clássicas.


==================

Sentar-se no mesmo lugar & a novidade

Todo segmento cultural tem seus personagens anônimos, e o setor de música clássica não seria diferente.

Aqui no Rio de Janeiro, por exemplo, temos uma figura muito conhecida do público que frenquenta concertos. Um senhor que se chama Mariano Gonçalves e tem por habito, no final dos concertos, em vez de gritar "Bravo!", gritar "Maravilha!".

É indefectivel: terminou a musica, la vem o "Maravilha!' do Mariano. Daí, muitos o conhecerem como Mariano Maravilha.

Frequentador dos mais assiduos, Mariano Maravilha está em todas. Ele gosta de sentar na mesma cadeira na plateia do Theatro Municipal e fica amuado quando nao consegue assistir ao concerto de sua tradicional poltrona.

Interessante e estranho este hábito de se sentar sempre no mesmo lugar, seja em restaurante, sala de concertos, em uma igreja para participar da missa, em salas de cinema. Há quem procure marcar assentos em vôos sempre nas mesmas poltronas.

Temporadas de assinaturas têm muitos assinantes que há décadas sentam sempre na mesma poltrona.

A sensação de pisar em terreno conhecido é confortável, claro, faz nos sentirmos em casa. Mas essa postura também pode indicar conservadorismo, fechamento ao novo, indisposição para o inusitado.

Sabemos o quanto as plateias de música clássica tendem ao conservadorismo, em todo mundo.

No momento em que o público se abre para "sentar em outros lugares", no sentido abstrato da expressão, se abre para ouvir todo potencial de novidade que uma composição novissima ou mesmo antiga tem a oferecer a seus ouvidos.


==================

Volume ao vivo e volume gravado


Ouvir música clássica ao vivo é uma experiencia bem diferente de ouvir música clássica gravada, seja em CD, DVD ou mesmo pelo rádio.

A questão do volume, por exemplo.

O volume da música gravada pode ser aumentado ou diminuído à vontade do ouvinte. Um som mais grave ou mais agudo depende apenas de girar ou pressionar alguns botões. Os equipamentos periféricos de última geração, acoplados a um sistema de som ou a um home theatre, oferecem uma verdadeira avalanche sonora.

E o que dizer dos tocadores de mp3 em geral e de iPods em particular?

O compositor Livio Tragtemberg escreveu uma vez artigo que levantava justo esta questão do volume estrondoso que estas maquinetas possibilitam e os danos que causam não apenas ao aparelho auditivo, mas tambem à escuta de forma mais ampla.

Interessam aqui não os danos, mas as mudanças na escuta do concerto ao vivo.

Os novos ouvintes que se aproximarem da música clássica pelas gravações ou mesmo os novos ouvintes que não têm qualquer relação com clássicos e estão acostumados a ouvir música pop em alto e bom som demoram a se daptar à acústica de uma sala de concertos.

Dia desses, um desses neófitos nos clássicos mas amante de música eletrônica omentou comigo ter achado estranho ouvir a Orquestra Sinfônica Brasileira no Municipal do Rio. Era sua primeira vez em um concerto. Ele adorou, mas queria ter ouvido mais alto.

Um ponto estranho esse do som, mas relevante quando se considera a ampliação de plateias.


==================

Cadeia produtiva da música clássica

Todos nós que trabalhamos com música clássica desejamos a ampliação de público frequentador de concertos, comprador de música gravada, livros e dvds sobre o assunto. Quanto mais gente interessada - e minimamente informada, claro - melhor.

Melhor para músicos, organizadores de eventos, técnicos, produtores, bilheteiros, jornalistas, radialistas. E também para pipoqueiros, vendedores de bala, lanchonetes, administradores de estacionamento...

Sim, por que quem vai ao concerto (em sala fechada ou ao ar livre), quem vai a uma loja escolher um disco, um livro ou um dvd acaba também consomindo outros produtos e serviços.

O economista Luiz Carlos Prestes Filho realizou um estudo amplo, alguns anos atrás,
sobre a cadeira produtiva da música. Ele levantou números importantes para posicionar a atividade além da realização artística e colaborar para a percepção de suas diversas engrenagens econômicas, seu peso na geração de empregos e renda.

Quando Prestes realizava seus estudos, tive a oportunidade de disponibilizar para ele parte dos dados compilados por VivaMúsica!, que há mais de 15 anos vem acompanhando de perto o setor de clássicos no Brasil.

A música clássica ficou representada de alguma forma no estudo de Prestes, mas ela merece um estudo à parte de sua cadeia produtiva.

Nós que trabalhamos para oferecer a você, ouvinte, uma boa oferta de música clássica, nós precisamos ter nossos números, nos entender como um setor da economia que contribui não apenas para ampliar horizonte cultural do cidadão, mas também tem sua parcela de colaboração para o PIB do país.

Da próxima vez que você for assistir a um concerto ou a uma ópera, lembre-se que seus aplausos devem ir não apenas para os artistas no palco mas também para a multidão de gente que trabalhou para colocar aquele espetáculo de pé e também para quem colaborou que você soubesse que o concerto iria acontecer.


==================

Propaganda e emoção


Um profissional de propaganda me procurou em busca de informações sobre o segmento de música clássica. Sua agência tinha a conta de um realizador de concertos e cabia a ele definir as linhas de comunicação e a compra de publicitadade em mídia.

Este publicitário "novato" no mundo da música clássica estava boquiaberto em perceber que a maioria dos anúncios de concerto não estão ligados a um conceito de comportamento nem buscam estabelecer algum link emocional com consumidores.

"Propaganda é emoção", dizia ele. "Por que os anúncios de concerto são apenas informativos e não têm qualquer carga emotiva?", perguntava.

O publicitário tem razão, salvo raras execções os anúncios de música clássica respondem às perguntas onde? quando? quem? quanto?. Não são como propaganda, que busca colocar emoção o ato de comprar de um produto, no caso, ingresso um evento musical.

Isso não quer dizer que música clássica não desperte emoções...Muito pelo contrário, talvez seja um dos maiores provocadores de fortes emoções entre todas as mainifestações artísticas. Mas isso só sabe quem entra na sala de concerto: umas poucas centenas de pessoas.

E os milhares, quiça milhões, que estão do lado de fora? É a elas que propaganda deve se dirigir.


==================

MEC FM e o Caveirão

Os ouvintes que costumam passar muitas horas do dia sobre quatro rodas sabem bem como fica melhor dirigir quando se ouve música clássica.

Não quero aqui reduzir toda a complexidade da linguagem musical a uma simples trilha sonora calmante para o caos no trânsito. Mas, com música clássica, dirigir fica mesmo outra coisa.

Motoristas de taxi são personagens importantes para ampliar essa exposição à musica clássica no carro.

Descobri um motorista aqui no Rio chamado Wagner que sempre puxa conversa sobre música com os passageiros, ao som da MEC FM. Se o passageiro demonstra interesse, ele entrega um exemplar da Agenda VivaMúsica!, que pega na bilheteria do Municipal.
O Wagner tem esse nome por que os pais dele adoram o compositor alemão Richard Wagner.

Mas eu ja tive uma vivência em táxi não tão lúdica quanto a que o Wagner proporciona. Quando entrei, pedi que o motorista sintonizasse a MEC FM. De imediato, ele perguntou se aquilo era música clássica e se a emissora sempre tocava músicas assim.

Ao término da corrida, me contou que era policial militar e tinha dois empregos.
Além, do táxi, ele dirige o Caveirão, o carro blindado da polícia que causa terror nas favelas cariocas. Contou que passará a ouvir música clássica no caminho de volta pra casa, ao término das jornadas ao volante do caveirão, sempre tensas e pavorosas.

Pelo jeito, a música clássica entrou na vida daquele motorista e vai ajudar a torná-lo alguém mais humano. Se isso acontecer, nós que trabnalhsmos pela divulgacao dos clássicos podemos no ssentir com a missão cumprida.


==================

Clássicos & funk


O historiador Rubem César Fernandes, diretor executivo da ONG Viva Rio, já sugeriu promover o encontro do mundo do funk carioca com a música clássica. Ele foi mais especifico: sugeriu que o DJ Marlboro fosse, de alguma maneira, introduzido ao universo dos clássicos.

Marlboro foi precursor do movimento funk aqui no Rio e, desde o início, é protagonista do segmento. Tem programas, selo de discos, website, continua fazendo bailes funk pelo Rio, mas tambem está presente em clubes noturnos e toca em grandes festivais de música pop, no Brasil e no exterior.

Marlboro sabe da sua força de comunicação e a usa em eventos beneficentes. Já organizou "Baile do Material Escolar"; "Baile do Agasalho" e "Baile do Brinquedo".

É ótima a idéia de estabelecer pontes entre universos sonoros que, aparentemente, são tão bicudos que não se beijam. Em especial aqui no Rio de Janeiro, região do Brasil em que os extremos sociais convivem com impressionante facilidade.

O grau de complexidade de escuta do funk e da música clássica são muito distintos. Mas isso não quer dizer que quem ouve funk, que tem uma estrutura formal muito simples, esteja de antemao fechado para a música clássica ou para a ópera.

Apresentar ao DJ Marlboro a grande experiência que é ouvir uma sinfonia de Beethoven executada ao vivo, em sala de concerto, pode não dar em nada...mas também pode dar em algo novo.

Um "rap do Beethoven" não é exatamente o produto final desejável na aproximaçào entre o funk e os clássicos. Mas, quem sabe, se a Associação das Equipes de Som, que reúne os principais organizadores de bailes funk no Rio, tiver disponibilidade de oferecer a seus associados alguns ingressos para o Theatro Municipal, um novo universo sonoro se abra a esses decisores de segmento, que mobiliza milhões de jovens cariocas?


==================

Jargao musical & rabeta bat tail

Muito por acaso, certa vez caiu em minhas mãos um exemplar de uma revista de surf.

Me chamou atenção a enorme quantidade de textos com uma linguagem quase cifrada para quem não vivencia aquele universo. O estranhamento remeteu imediatamente ao nosso universo musical.

Será que, aos olhos e ouvidos de quem não está familiarizado com os clássicos, a maneira de falar sobre música clássica pode soar como jargão incompreensível?

Veja o caso da revista de surf. Legenda para a foto de uma praia aqui do Rio: "Leblon, tipo shorebreak de Waimea". Que patavinas quer dizer shorebreak?

Outro exemplo: um anúncio que me parecia ser de pranchas dizia: "Quadrilhas com quilhas de encaixe, rabeta bat tail". Rabeta o que??

Boiei mais que os surfistas a espera da melhor onda.

O editor daquela revista deve imaginar que todos seus leitores pegam onda desde criancinhas. Assim como muitas vezes me parece que quem comunica música clássica
imagina que a totalidade de seu público ouve Scriabin desde o berço e está bem familiarizado com o jargão musical.

Para quem ouve clássicos com frequência a expressão "vibrato desnecessário" é óbvia. Mas quem disse que o grande público sabe o que é vibrato? Certamente quem está comecando a ouvir música clássica não sabe bem do que se trata.

Se queremos mais gente ouvindo música clássica temos que simplificar o discurso. O desafio é esse, simplificar sem banalizar nem perder a essência.

Ah, sim, rabeta é a parte de trás da prancha e bat tail é o formato em asa de morcego.


==================

Números & assentos


Um dos problemas que ronda a música clássica no Brasil é a falta de números.

Já o cinema, por exemplo, faz muito bem feito o acompanhamento de seus negócios. Basta um filme estrear e logo na segunda-feira seguinte já está disponivel - e divulgado - o total de publico do final de semana somando todas as cidades de exibição.

O cinema trabalha muito bem os seus números. Na música clássica não é assim. Nas artes plásticas, no teatro, na MPB também não. Mas, os clássicos são nosso foco e nos interessam de forma especial.

Sempre me chamou a atenção a falta de números da música clássica, até por que os principais recursos de incentivo cultural no Brasil estào nas mãos de empresas patrocinadoras.

Se é o mercado que de certa forma dá as cartas, então há que se ter as ferramentas de negociação e de persuasão que o mercado compreende: números.

Se algum dia for feito um levantamento específico de cadeia produtiva da música clássica, imagino que se vá chegar a números supreendentes que demonstrarão a importância quantitativa dos clássicos na insústria cultural brasileria.

Acabei de fazer um levantamento númérico da oferta de música clássica aqui no Rio de janeiro a maio de 2010. Considerei todos os eventos musicais, a lotação de cada lugar onde o eventoocorreu e cheguei a um total de assentos disponiveis para ocupação.

Sabe qual o total de lugares? 118 mil.

Ou seja, de janeiro a maio de 2010, o Rio clássico disponibilizou 118 mil ingressos ao público. Quantos destes assentos estão ocupados? Isso só fazendo um estudo específico.

Uma oferta impressionante para quem insiste em acreditar que o Brasil é apenas o país do samba.


==================

Orquestra útil para sociedade

Nós que gostamos de música e muitas vezes frequentamos concertos, ouvimos rádio, estamos de alguma maneira sintonizados nesse universo, talvez tenhamos plena consciência do valor e da importância dos clássicos na rotina de uma pessoa.

Mas, e os milhões de moradores do Rio de Janeiro que não se envolvem diretamente com o circuito de concertos... será que este enorme grupo consegue reconhecer valor de se ter boa atividade sinfônica na cidade?

E para que serve mesmo uma orquestra? Para fazer concertos frequentados por quem
gosta... e... o que mais? Para muita coisa mais. Só que o tanto de coisa que uma orquestra pode fazer fica eclipsada pela temporada de concertos.

É dificil a sociedade ter uma percepção mais ampla se a própria orquestra se concentra na sua programação de eventos. E é natural que se concentre, mas as necessidades de interação com a sociedade sao bem mais amplas do que apresentar uma temporada de concertos.

Em que pode ser útil a música clássica na vida das pessoas? Esta mesma pergunta poderia se aplicar ao teatro ou ao cinema. Para que serve o teatro? Para que serve o cinema? Eles são úteis? Útil vem de utilizável, usado....se voce usa alguma coisa ela é útil.

Existe nos Estados Unidos uma entidade chamada Liga das Orquestras Amercianas, em atividade há mais de 60 anos. Uma das finalidades da Liga é ajudar as orquestras a reafirmarem seu papel de importância na sociedade. Eles estão muito avançados neste aspecto...até porque as próprias orquestras americanas buscam presença fora da sala de concertos.

Aqui no Brasil, ainda temos muito a fazer. Pensando positivo, que bom, pois se a atividade orquestral do país hoje passa por um período otimista, imagine o que pode acontecer quando a relação com a sociedade se ampliar. Há muita coisa boa por vir.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Nelson Freire, rádio e elemento surpresa

Este comentário foi ao ar inicialmente em julho/ 2010, no boletim "VivaMúsica! e o mundo dos clássicos", pela MEC FM do Rio de Janeiro. Meus comentários lá vão ar todos os dias, às 13h.

===========

Um vez, o pianista Nelson Freire disse em entrevista que gosta muito de ouvir música pelo rádio, pois assim não precisa ficar escolhendo disco toda hora.

Ele exemplificou o valor do elemento surpresa no rádio, mencionando que, um dia, ao ouvir certa peça de Liszt sendo tocada, estava certo que se tratava da colega e amiga Martha Argerich, até perceber um estilo de mão esquerda tipicamente seu. Era ele tocando Liszt.

Ao declarar-se um ouvinte regular e dar um exemplo contundente de como o rádio é capaz de surpreender, Nelson Freire levantou uma questão crucial para formação de platéias na música clássica.

A midia eletrônica - ou seja, rádio e televisão - são as principais portas de entrada para o mundo dos clássicos, seja você um iniciante ou um amante velho de guerra.

Aqui no Rio, a MEC FM cumpre com maestria esse papel de trilha sonora do cotidiano de quem ama os clássicos. É enorme o universo sonoro uma emissora de rádio pode oferecer, mas, a meu ver, ainda há muito a ser feito.

Veja o caso de São Paulo, por exemplo, onde existem 36 emissoras de FM no dial. Das 36, somente uma, a Cultura, tem programação integralmente dedicada aos clássicos: isso significa cerca de 3% da oferta de rádios. Você pode pensar que até está ok, pois nem tanta gente assim se interessa por música clássica. Negativo.

Uma pesquisa feita pelo Centro de Estudos da Metrópole mostra que 7% dos paulistanos têm música clássica como seu gênero musical favorito. Isso é muita coisa: a tal pesquisa mostrou que paulistanos gostam tanto de rap e hip hop quanto de clássicos.

Então, há - ou deveria haver - mais espaço pra a música clássica ocupar no dial FM de São Paulo.

Quem sabe um dia o pianista Nelson Freire não se surpreende ouvindo a si próprio numa rádio popular de São Paulo?

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Os comentários da MEC FM, aqui no blog

Desde julho de 2010, meu programa diário na MEC FM do Rio de Janeiro (98.9Mhz) tem sido destinado a refletir sobre questões do mercado de música clássica.

A rádio coloca os comentários de 3-4 minutos no ar, sempre às 13h. Às vezes, disponibiliza podcasts.

Como alguns ouvintes têm me contactado pra pedir os textos dos comentários, achei que seria uma boa ideia disponibilizá-los aqui no blog. Aos poucos, vou colocando o lote completo.

Vou começar pelos que foram ao ar em julho de 2010. Um lote de 12 comentários, cujo primeiro foi esse que reproduzo abaixo.

"Ouvido inocente & blindfold test"

Certa vez, a revista inglesa Gramophone publicou artigo de Harriet Smith sobre o "ouvido inocente".

A autora se refere à experiência de ouvir uma música sem saber de que se trata ou por quem foi escrita. Seria uma escuta sem pré-conceitos.

A articulista, que não gosta do compositor Philip Glass, relata uma ida recente a concerto sem saber o repertório da noite. Ela adorou uma das peças que era escrita por quem...? Justo Philip Glass.

Se soubesse de antemão se tratar de uma peça de Glass, seus ouvidos provavelmente estariam preparados para não gostar.

Bem interessante o artigo dela e todo esse conceito do "ouvido inocente". Me remeteu à questão de execução de repertório brasileiro em salas de concerto do Brasil.

É sabido haver um certo preconceito com relação à produção clássica brasileira. Repertórios nacionais atraem menos espectadores do que repertórios estrangeiros. O mesmo diz respeito à presença na mídia. Mozart dá mais Ibope que Francisco Mignone.

Essa história de "ouvido inocente" também me fez lembrar daqueles anúncios de refrigerante em que consumidores usam vendas nos olhos e, sem saber o que bebem, diziam qual sabor lhes satisfaz mais.

O tal do blindfold test - o teste de olhos vendados. Sem ver a embalagem e sem se deixar impregnar de todos os conceitos associados às marcas, o consumidor muitas vezes diz preferir um refrigerante que jamais compraria.

Ouvido inocente, olhos vendados.... se tem um canal que possibilita fartas experiências neste sentido, é a audição de rádio, em especial quando se pega uma peça no meio da transmissão.

Da próxima vez que acontecer a você, em vez de ficar amuado por não saber o que está tocando, aproveite a oportunidade de exercitar o "ouvido inocente", se surpreender e descobrir novos mundos sonoros.

terça-feira, 13 de julho de 2010

a revista facebook e a morte de radegundis

já se vão quase 15 dias e ainda não aplacou em mim o choque da primeira morte próxima da qual tomei conhecimento pelo facebook.

choque pela morte em si, a perda artística e humana que ela representou e também - talvez principalmente - pelo por um certo "jeito facebook de ser e de reagir", que se tornou estranhamente claro a partir do episódio.

me refiro ao falecimento do trombonista radegundis feitosa, da paraíba, em um trágico acidente de carro no primeiro dia deste mês de julho.

estava lendo facebook, quando vi o primeiro aviso da morte. depois outro aviso, mais outro. um comentário, outro comentário, mais um comentário. muitos avisos e muitos comentários.

naquelas três ou quatro telas, só se falava do desaparecimento de radegundis.

até aí, era a comunidade artística manifestando sua dor.

mas e o intercalar de posts, comentados ou não, sobre os mais diversos assuntos? claro, nem todos meus amigos de FB são do meio musical clássico ou, mesmo os que são, quiseram externar seus sentimentos a partir da notícia da morte.

eu mesma preferi calar. dizer o que, diante do tamanho da brutalidade daquela perda?

o facebook é uma espécie de revista, com várias editorias. cada um de nós, ao escolher, aceitar e ocultar amigos, compõe o conteúdo de sua revista e, consequentemente, seleciona editorias & assuntos que vai ler.

se, naquele dia fatídico, na minha editoria "música clássica" (= os amigos que são desta área) havia um sentimento generalizado de perda, nas demais editorias da grande revista FB customizada para heloisa fischer a vida seguia normal.

um amigo que externava seu pesar com o falecimento era ladeado por alguém que avisava estar agora solteiro e por outro com uma piada engraçada sobre a copa do mundo. banalidades.

a variedade de momentos (interessantes ou não) compilados em uma única tela é das principais atrações do FB. gosto disso e já me acostumei a isso.

mas acostumar com a maneira rasa e rala que o ambiente facebook contagia assuntos de real profundidade e consistência....humm, com isso espero jamais me acostumar.

terça-feira, 8 de junho de 2010

sidney, hong kong e miami dão caldo para o rio

li hoje três artigos na mídia on-line internacional que, juntos, dão um caldo interessante quando se pensa em cidade da música.

>> texto no musicalamerica.com sobre a inauguração de uma nova era na new world symphony de michael tilson thomas a partir de - e para além da - sua nova sala de concertos que fica pronta em outubro, em miami;

>> matéria em um certo the australian sobre o astronômico orçamento de 800 milhões de dólares para salvar a ópera de sidney da degradação total de sua infra-estrutura;

>> artigo no the wall street journal sobre o desenvolvimento de público para ópera em hong kong tempos antes de um novo complexo cultural ser inaugurado.

michael tilson thomas anuncia a inauguração do novo hall da new world symphony e, junto com o local físico, propõe uma nova postura da orquestra nestes tempos de internet consolidada. o discurso é do tipo "vamos tratar de fazer música clássica além da sala de concerto, para a enorme quantidade de gente que se interessa mas não frequenta". em tempo: a nova sala projetada por frank gehry senta apenas 756 pessoas.

povo da liga das orquestras americanas bate nesta tecla há tempos, mas não se referindo necessariamente a utilizar web e redes sociais para difundir música sinfônica. a liga insiste que a orquestra tem um papel fundamental para a sociedade como um todo e não apenas para as poucas centenas que frequentam seus concertos. eles usam um conceito que acho ótimo: a orquestra deve assumir o papel de "usina de música" de sua comunidade. uma vez que requer uma quantidade grande de recursos para existir, a orquestra pode e deve estar ao alcance de todos....e, para tal, precisa ir até eles. enquanto não compreender isso e mergulhar de cabeça na rotina da cidade, vai ser vista e sentida como arte para poucos. vai perdendo importância com o passar do tempo.

o novo hall da new world symphony foi completamente projetado para os meios de comunicação do século 21, possibilitando transmissões on-line e também para mil pessoas do lado de fora do prédio, telões no palco para projetar as notas de programa e closes dos músicos enquanto tocam.

essa realidade americana me fez pensar, meio chocada, no complexo cultural cidade da música, no rio de janeiro, tomando maresia nas estruturas fechadas desde sua inauguração fake, em dezembro de 2008.

já o artigo sobre a degradação da ópera de sidney, cartão postal da austrália para o mundo, também fez lembrar um pouco o debate - falta de debate, melhor dizendo - em torno da cidade da música.

o complexo cultural de sidney é lindo do lado de fora mas, pelo jeito, micado do lado de dentro. levou quase 15 anos para ser completado (1958-1973) e seu projeto original sofreu inúmeras modificações. passados mais de 35 anos de atividades, são necessários 800 milhões de dólares para garantir que o Teatro de Ópera (um dos espaços do complexo) funcione com eficiência e segurança, voltando ao projeto original que havia sido descaracterizado durante a construção. só um túnel de acesso para caminhões transportando equipamentos fica em 152 milhões de dólares. cifras astronômicas.

por último, o artigo do wall street journal fala do trabalho de formiga de um homem chamdo laurence scofield, visando despertar interesse do público de hong kong para a cena lírica. está sendo construído naquela cidade um grande complexo cultural que envolve teatro para ópera. como os chineses não são exatamente fãs da ópera ocidental, que mágica fazer de modo a garantir que a sala de 2.000 lugares fique cheia quando abrir em alguns poucos anos?

e não é que isso também me fez lembrar da cidade da música? há quem ainda acuse o projeto de estar cravado na zona oeste, mais especificamente na barra da tijuca, área do rio de janeiro em que a música clássica não teve ainda a sua vez. por outro lado, uma área de enorme ocupação populacional. "de que serve tanta gente, se eles não gostam de música?", é o que tem se ouvido por aí.

laurence scofield tem sensibilizado o público de hong kong organizando, por lá, as sessões de cinema com óperas do metropolitan de nova york (aqui no brasil, elas passam desde a temporada passada). scofield compreendeu que é preciso oferecer ópera para que as pessoas possam decidir se gostam ou não do gênero. a surpresa é que, ao contrário dos prognósticos, a coisa está funcionando por lá. a sala onde são exibidas as sessões de cinema senta apenas 125 pessoas. com o tempo, o projeto está crescendo.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

tosse em concertos merece reflexão

fui ontem ao concerto de nelson freire com petrobras sinfônica na rio folle journée. ele tocou o segundo de chopin (compositor homenageado pelo festival-maratona este ano) e, depois, a orquestra fez a quarta sinfonia de schumann.

só consegui ver a performance de nelson e, ainda assim, meio desconcentrada.

quase toda minha atenção dirigia-se a controlar a tosse que me aflige desde domingo, fruto do vento do mar de copacabana durante concerto do projeto aquarius.

no início da sinfonia, tive de sair da sala para tossir e não consegui mais voltar.

sentei nos sofás redondos do hall de entrada do municipal - antes amarelos, pós-reforma eles agora são verdes -, onde fiquei por alguns bons minutos apreciando detalhes do restauro do teatro, enquanto meus amigos apreciavam o schumann de isaac karabtchevsky.



salas de concerto costumam reunir incomum quantidade de pessoas com tosse. vá ao teatro ou a uma sessão de cinema e o número de gente tossindo não é tão grande.

todos temos nossos dias de gripe e resfriado, especialmente nos momentos mais frios do ano. muitas vezes estes dias coincidem com concertos imperdíveis, como era o caso de ontem.

mas, sei não, acho que a tosse nos concertos merecia uma reflexão mais aprofundada, seja por um antropólogo, seja por um pneumologista.

terça-feira, 1 de junho de 2010

itinerância orquestral: mixed feelings

estava editando hoje o texto "brasil clássico em junho, off rio-sp", apurado e escrito por meu assistente, o jornalista eduardo carvalho, quando me deparei com o seguinte texto:
Fechando o mês, o conjunto fará duas turnês estaduais, passando por cidades como Tupaciguara (17/06), Araguari (18/06), Uberlândia (19/06), Pouso Alegre (24/06), Alfenas (25/06), Poços de Caldas (26/06) e Guaxupé (27/06).

o texto se refere à itinerância orquestral da filarmônica de minas gerais neste mês de junho.

itinerância orquestral é o tipo do assunto que me desperta mixed feelings.

por um lado, adoro ver os grupos circulando por seus estados, às vezes pelo brasil e, raros casos, por outros países.

o que mais gosto mesmo é a circulação dentro do estado de origem da orquestra. quanto mais fora do espectro da capital, mais alegre fico em receber e divulgar a notícia. como nesse caso da filarmônica de mg: eles vão levar música clássica a tupaciguara, no norte do triângulo mineiro!

por outro, fico intrigada e encafifada por que orquestras com sede no rio de janeiro pouco ou nada circulam por nosso estado. é mais fácil ouvir a orquestra sinfônica brasileira em são paulo do que em niterói ou petrópolis.

ok, é mais fácil arranjar as condições adequadas para receber a osb em são paulo do que em niterói ou petrópolis....

mas, sei não, esse complexo de guanabara que ainda assola nossa capital e nos faz dar insistentemente as costas para o estado do rio bem que poderia ser diferente no que tange ao mundo orquestral.

no dia em que eu receber um release de itinerância orquestral por nova friburgo, campos, paraty, barra mansa, cabo frio, natividade e afins, serei uma jornalista mais feliz.